terça-feira, 27 de agosto de 2013

Ego

Eu caminhei sobre espinhos
Deles feitos os caminhos
Eu percorri os horizontes
Eu abandonei os presentes
Andei, em busca andei
Os meus pés foram anjos
Os meus braços querubins
As minhas mãos demónios
Eu entrei, eu saí
Eu fui, tentei, eu fim
Eu num pequeno passo de magia percebi
A diferença essencial
Que incendeia as almas em junção
Eu mastiguei, regurgitei
Os bocados de ser que me faltavam
Eu amaldiçoei
Todas essas coisas
Que me consumiam
E me despertavam a cobiça
De ser, esquecer e voltar a ser
Eu fui o génio, o estúpido
Eu mostrei a mim próprio os bocados
Eu fui sensualmente e fui
Eu interpretei
Eu mastiguei
E afundei-me
Previsivelmente
Eu sou um rastilho acelerador
Eu

O meu corpo, eu sinto-o
Como um peso informe
A minha dor
É uma ilusão

Eu escrevo
Uma ilusão
Um som, um ruído
Um sermão

Palavras
Um corpo que me sustém
Toda esta quimera inútil
Uma ilusão

Estas secreções hormonais
Este amor que eu sinto
Este precipício
Todo o ser é um Nome
Uma ilusão

Queria, eu queria, queria
Sei, eu sei, sei
Presumo, eu presumo, presumo
Que sou eterno e a alma
É ritmo
A dança dos corpos
O movimento animé
Um só instrumento
Animé

Estes extraordinários momentos
Estas fagulhas de existência

Este aterrar e levantar

O projecto de outros
Este sentir, este ser
Este som, o ruído
O ritmo, a centelha
Esta morte, esta vida!
O meu é vosso, é o ser?
Meus irmãos! Sou um dos que vos vai revelar
O lugar de Deus nos nossos opróbrios
Sou eu, afinal, que leio nas entrelinhas
Sou eu que devoro os filisteus
Sou eu o apóstata

Sou eu o filósofo!
Porque só eu grito
Não há mais filósofos
Senão eu

Mas eu, uma nota, um som
Eu, harmonia, eu beleza

Uma lágrima para sempre
Deixarei, um símbolo
De isto, eu aquí

Uma lágrima derramada num rio

De lágrimas

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